segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"LÁ ONDE EU MORAVA"

Assim mesmo, sem vírgula, num sopro só, era como as crianças falavam lá onde eu morava. Uma cidade nova e pequena, à beira de um grande rio e rodeada de plantações, fronteira do povoamento, onde todo mundo vinha de fora. Só os bebês haviam nascido ali. As crianças nas suas rusgas de competição contavam e inventavam histórias começando sempre por este refrão: "lá onde eu morava..." Algum tempo depois, o refrão tornou-se a senha para a descrença.
Eu lembrei disto agora por causa da história que me veio à mente. De lá, de onde eu morava.
Havia um homem inteligente, bem à frente dos outros, preocupado com o presente e o futuro. E como o povo sofria para controlar suas vastas plantações, pulverizá-las eventualmente, expulsar animais depredadores e outras coisas, ele resolveu construir para a comunidade, nada mais nada menos do que... um avião! Dias de trabalho, aplicados diligentemente em sua empreitada e o objeto ficou pronto. Anunciou à população -- pelos meios de divulgação que se pode ter num local como aquele -- e todos se reuniram curiosos em volta de sua obra. Observaram, analisaram, estudaram, testaram, coçaram suas cabeças, e verificaram -- alguns constritos, outros zombeteiros -- que a coisa não voava! Os que o admiravam, certos de que não poderia algo inútil sair de tão brilhante mente, foram empurrando o objeto para o rio, e, assim que o lançaram na água, verificaram, felizes, que ele... flutuava! Alvissareiros notaram que não apenas flutuava, mas que o objeto era, na verdade, um barco muito mais aperfeiçoado que os demais, os quais, próximos à obsolescência, balançavam acorrentados à margem. E o número das pessoas que passaram a servir-se do novo modelo de barco aumentou consideravelmente. Mas, pasmem, para desgosto do seu construtor, que chegava a ficar indignado quanto ao uso que davam para o seu avião. "Calma, rapaz, desfrute de sua invenção, é um excelente barco", diziam as pessoas. Ao que ele respondia que não era barco, pois o inventor era ele, e ele sabia muito bem o que tinha inventado; um avião! O mais estranho é que não faltavam pessoas a concordar com ele; a teimar e argumentar que era um avião, e que os habitantes do lugar deveriam utilizá-lo para voar. O tempo foi passando, as pessoas que adotaram o barco pescavam e navegavam pelo rio, os que o achavam um avião tentavam fazê-lo voar, até que um dia, sentado numa pedra, o inventor observava o rio distraído, quando aproximou-se dele um menino e perguntou: "Então, inventor, é um barco ou não é?" O homem olhou o menino, olhou o rio e as silhuetas das embarcações contra o sol fraco da tarde, e iniciou a resposta: "É... bem... bom... sim... mas...". E mais não disse, pois morreu atingido por um infarto fulminante.

Pouco tempo faz eu retornei "lá onde eu morava". Matar a saudade, antes que ela me matasse. A cidade cresceu, a paisagem mudou, mas o rio está lá. Cheio de embarcações, muitas delas são modelos um tanto modificados do barco do inventor. Estão levando turistas pelo rio, equipes em pesquisas, pescadores em busca do seu sustento diário. Várias pessoas alegres, louvando a inteligência daquele homem que lhes proporcionou tal objeto.
Mas, ao lado da pequena praia fluvial havia um grupo de pessoas sérias, olhando para o rio com expressões ora zombeteiras, ora resmungonas, censurando e criticando os demais, como se navegar fosse uma traição ao inventor do barco. Aproximei-me a fim de ver o objeto que eles cercavam e guardavam. Parecia a invenção original, um pouco desgastada pelo tempo, acrescida de alguns componentes novos, uma turbina, talvez, uma pintura nova.
Contudo... ainda não voa!


2 comentários:

_Levikó disse...

Muito bom!
abraços

Anônimo disse...

Beleza de texto Donha.
Abraço.
Parchen