segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"LÁ ONDE EU MORAVA" (um conto com pretensão filosófica)

Assim mesmo, sem vírgula, num sopro só, era como as crianças falavam lá onde eu morava. Uma cidade nova e pequena, à beira de um grande rio e rodeada de plantações, fronteira do povoamento, onde todo mundo vinha de fora. Só os bebês haviam nascido ali. As crianças nas suas rusgas de competição contavam e inventavam histórias começando sempre por este refrão: "lá onde eu morava..." Algum tempo depois o refrão tornou-se a senha para a descrença.
Eu lembrei disto agora por causa da história que me veio à mente. De lá, de onde eu morava.
Havia um homem inteligente, bem à frente dos outros, preocupado com o presente e o futuro. E, como o povo sofria para controlar suas vastas plantações, pulverizá-las eventualmente, expulsar animais depredadores e outras coisas, ele resolveu construir para a comunidade nada mais nada menos do que... um avião! Dias de trabalho, aplicados diligentemente em sua empreitada, e o objeto ficou pronto. Anunciou à população -- pelos meios de divulgação que se pode ter num local como aquele -- e todos se reuniram curiosos em volta de sua obra. Observaram, analisaram, estudaram, testaram, coçaram suas cabeças, e verificaram -- alguns constritos, outros zombeteiros -- que a coisa não voava! Os que o admiravam, certos de que não poderia algo inútil sair de tão brilhante mente, foram empurrando o objeto para o rio e, assim que o lançaram na água, verificaram, felizes, que ele... flutuava! Alvissareiros notaram que não apenas flutuava, mas que o objeto era, na verdade, um barco muito mais aperfeiçoado que os demais, os quais, próximos à obsolescência, balançavam acorrentados à margem. E o número das pessoas que passaram a servir-se do novo modelo de barco aumentou consideravelmente. Mas, pasmem, para desgosto do seu construtor, que chegava a ficar indignado quanto ao uso que davam para o seu avião. "Calma, rapaz, desfrute de sua invenção, é um excelente barco", diziam as pessoas. Ao que ele respondia que não era barco, pois o inventor era ele, e ele sabia muito bem o que tinha inventado; um avião! O mais estranho é que não faltavam pessoas a concordar com ele, a teimar e argumentar que era um avião, e que os habitantes do lugar deveriam utilizá-lo para voar. O tempo foi passando, as pessoas que adotaram o barco pescavam e navegavam pelo rio, os que o achavam um avião tentavam fazê-lo voar, até que um dia, sentado numa pedra, o inventor observava o rio distraído, quando aproximou-se dele um menino e perguntou: "Então, inventor, é um barco ou não é?" O homem olhou o menino, olhou o rio e as silhuetas das embarcações contra o sol fraco da tarde, e iniciou a resposta: "É... bem... bom... sim... mas...". E mais não disse, pois morreu atingido por um infarto fulminante.

Pouco tempo faz eu retornei "lá onde eu morava". Matar a saudade, antes que ela me matasse. A cidade cresceu, a paisagem mudou, mas o rio está lá. Cheio de embarcações, muitas delas são modelos um tanto modificados do barco do inventor. Estão levando turistas pelo rio, equipes em pesquisas, pescadores em busca do seu sustento diário. Várias pessoas alegres, louvando a inteligência daquele homem que lhes proporcionou tal objeto.
Mas, ao lado da pequena praia fluvial havia um grupo de pessoas sérias, olhando para o rio com expressões ora zombeteiras ora resmungonas, censurando e criticando os demais, como se navegar fosse uma traição ao inventor do barco. Aproximei-me a fim de ver o objeto que eles cercavam e guardavam. Parecia a invenção original, um pouco desgastada pelo tempo, acrescida de alguns componentes novos, uma turbina, talvez, uma pintura nova.
Contudo... ainda não voava!


sábado, 7 de junho de 2014

1914-1918 - CENTENÁRIO DE UMA HECATOMBE



A Primeira Grande Guerra -- aquela que, nas esperanças humanas, acabaria com todas as outras --, está completando cem anos. Quando criança, as imagens que eu tinha de uma guerra referiam-se a este conflito; somente na adolescência elas foram sendo substituídas pelas cinematográficas. Isto porque minha querida e saudosa avó materna, Maria de Carli, vivenciou, no front italiano, as consequencias desse desatino em grande escala. Seus relatos, acompanhados pelos olhinhos arregalados da minha mãe e meus tios nas noites paulistas, ao calor aconchegante do fogão de lenha, perduram no imaginário familiar.
No verão de 1914, Maria ainda não havia completado os onze anos. Corria pelas verdes planuras de Pasiano di Pordenone, em direção à Escola Comunal, embalada nos sonhos infantis, ansiosa pelo reencontro com a mestra querida, na esperança de tornar-se, mais tarde, ela mesma uma professora. Em sua casa -- um daqueles típicos sobrados do meio rural --, sua mãe, Virgínia Victor, dava conta dos afazeres domésticos, os quais incluíam a ordenha da vaca e a colheita dos ovos das poucas galinhas, enquanto seu pai, Antonio de Carli, cuidava das amoreiras, com seus vários bichos-da-seda, a nova e promissora fonte de renda da família, além do pomar e do pequeno vinhedo. Maria, a mais velha entre 8 irmãos, ajudava, claro, o papai e a mamãe, na faina diária, conforme os costumes familiares da época, além de sua dedicação aos estudos.
A Itália não se contava entre as nações mais ricas da Europa. Haviam regiões bastante sofridas. Mas, Pasiano di Pordenone, na época Província de Udine, região da Friuli, era um "tra i più avanzati comuni"(1). As associações agrícolas da Friuli do final do Século XIX e começo do XX, inspiradas pelas idéias mutualistas -- que hoje persistem como cooperativistas -- influenciaram uma exploração da terra e do trabalho mais avançada em relação a outras regiões. Empenhavam-se na modernização das técnicas agrícolas, no combate às pragas dos vinhedos, na introdução de novas culturas, como o bicho-da-seda e as orquídeas, desenvolviam cavalos de raça. O comune possuía um "laticínio social", fornos comunitários, uma pequena hidrelétrica, moinho e, ainda, investiam na formação e aperfeiçoamento dos agricultores e na educação popular. Uma empresa de cerâmica produzia azulejos que, tais como outros produtos, eram exportados para outras regiões do país e mesmo para o exterior (1). Enquanto que, a poucos quilômetros dali, na região do Vêneto, mais especificamente no comune de Motta di Livenza, sob condições mais severas, a família do meu avô materno, Pietro Vendrame -- que só viria a conhecer minha avó muitos anos depois, no Brasil -- viram-se obrigados a emigrar, dois anos antes, em busca de melhores condições de vida.
Assim viviam Maria, seus pais, irmãos, primos e tios, até que uns tiros de revólver desferidos por um estudante bósnio-sérvio de 20 anos, a algumas centenas de quilômetros dali, mudou a vida de todo mundo.
O Império Austro-Hungaro -- alemão e magiar, como indica o nome -- dominava povos italianos e eslavos -- estes últimos, os eslavos do sul, ou iugoslavos. E vivia em queda-de-braço com a Sérvia, também eslava, porém independente. Em 28 de junho de 1914, quando o Arquiduque Francisco Ferdinando , herdeiro do Império, visitava Sarajevo -- cidade da atual Bosnia-Herzegovina, na época sob seu domínio --, foi assassinado, juntamente com a esposa, pelo estudante bósnio-sérvio Gravilo Princip. A Áustria culpou a Sérvia e, viu no incidente uma oportunidade de acerto de contas: um mês depois do atentado, e após um ultimatum impondo condições inaceitáveis, invadiu o país eslavo. A Rússia, por ser aliada da Sérvia, declarou guerra à Áustria. A Alemanha, aliada da Áustria, declarou guerra à Rússia. A França, aliada da Rússia, declarou guerra à Alemanha. E a Inglaterra, aliada da França, veio em seu socorro. Pronto, os tiros do jovem Princip deflagraram a tragédia.

Cenas do atentado: O Arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, em 28 de junho de 1914, saindo da prefeitura de Sarajevo para seu último passeio; Gravillo Princip sendo preso e conduzido pela polícia; O casal exposto no cadafalco.(2)

A Itália não entrou na guerra logo de início. Ela era aliada da Alemanha e da Áustria desde 1882, mas, tinha pendências territoriais com o Império dos Habsburgos. Então, procurou fazer a sua própria guerra, vendendo caro sua adesão a um lado ou outro. Como a Áustria não aceitou entregar-lhe suas regiões de língua italiana, a Itália aderiu aos aliados, em maio de 1915.
A partir daí a vida de Maria e sua família começou a mudar. Os homens -- papai e tios -- foram convocados. Em casa permaneceram as mulheres e as crianças. Os serviços agrícolas mais pesados foram suspensos, os animais começaram a ser abatidos, para o consumo próprio ou para abastecer o exército. A pobreza e a fome foram se instalando.
Considerando o modelo de guerra ainda vigente o melhor campo de batalha ofertado para os dois exércitos era justamente a Friulli-Venezia Giulia. E foi por aí que os italianos iniciaram a ofensiva contra os austríacos: para o nordeste, em busca da ocupação dos territórios de língua italiana. De início avançaram; porém, tal como no front ocidental, logo as coisas estagnaram, as trincheiras foram cavadas e, cada palmo de chão passou a ser conquistado à custa de muitas vidas. Dois anos de intenso conflito, e os italianos optaram por manter-se na defesa das posições ocupadas. Os aliados, que insistiam na manutenção da ofensiva italiana para enfraquecer os países germânicos no front ocidental, castigaram a nova estratégia defensiva retirando sua ajuda em armamentos. Por seu turno, a Áustria aumentara a pressão sobre a Alemanha para que a ajudasse na ofensiva. O resultado foi uma ofensiva das forças alemãs e austríacas sobre o elo mais fraco da defesa italiana, impondo a esta a fragorosa derrota de Caporetto e a retirada trágica do exército italiano em outubro de 1917. A Província de Pordenone sempre esteve no caminho: tanto no avanço, quanto na derrocada.


Derrocada militar após Caporetto


População fugindo do avanço alemão

www.youtube.com/watch?v=AxJ272JzQ90
Sequencia do filme "Adeus às Armas", de 1957, com Rock Hudson, Jennifer Jones e Vittorio de Sica, mostrando a retirada de Caporetto.


A esta altura, as mulheres da família haviam morrido na epidemia de tifo, restando apenas as crianças. Minha avó Maria, com apenas quatorze anos, era a responsável por sete irmãos e sete primos com idade abaixo dela. A única ajuda com que contava era a irmã Amália, um pouco mais nova. Parentes e vizinhos, em grande maioria, retiravam-se caoticamente junto com o exército, temendo o avanço alemão. Os que permaneciam em suas casas, tinham sua própria luta pela sobrevivência. Os invasores sempre têm chifres, orelhas pontudas e pés de cabra. Mas, a maior ameaça, nas derrotas e retiradas, são os desertores.
Sem produção agrícola, com o comércio em desordem, um dia as provisões se esgotam, mesmo se racionadas. Quando isto aconteceu, as crianças juntaram os últimos restos de fubá da despensa, com alguns ingredientes que sobraram, e Maria fez uma suculenta polenta, colocou no centro da grande mesa de madeira, e todos sentaram-se à volta, olhares famintos, esperando que esfriasse o suficiente para ser consumida. De repente, a casa é invadida por dois desertores, igualmente famintos, cobertos de barro, gritam e ameaçam as crianças com suas armas, pegam a polenta como podem e continuam sua fuga inglória O desespero tomou conta das crianças famintas. As grossas tábuas do piso da despensa cobriam um pequeno porão para onde escorriam as perdas dos produtos armazenados. Era o último recurso. Havia uma abertura por onde apenas o mais magrinho de todos conseguia passar. Depois de vários desmaios, ele conseguiu recolher uma quantidade suficiente de farelo que, uma vez separado precariamente da poeira, forneceu uma polenta muito menos apetitosa do que a perdida.
Tempos de penúria. Poucas vezes lhes era permitido serem crianças; como quando à noite se debruçavam nas janelas para observarem os clarões distantes da artilharia: primeiro a nordeste, depois ao norte e, finalmente, a oeste. Diariamente as duas irmãs deixavam os menores no pavimento superior, os mais velhos controlando os mais novos, e saíam pelos arredores em busca do que encontrassem. Certa vez, retornando com a noite iniciada, entraram em casa e sentiram como se tropeçassem em sacos de roupas. Andaram mais um pouco e notaram que pareciam pessoas deitadas; ouviram imprecações numa língua estranha. Apressaram o passo, alcançaram a escada e refugiaram-se em seus quartos. Quando o dia amanheceu, desceram e constataram: um regimento alemão acampara em sua casa! Os temidos diabos verdes estavam ali, na sala, na cozinha, por tudo. Aos poucos foram vendo que não eram nem verdes, nem diabos. Logo veio o intérprete do destacamento avisá-las que a casa e a fazenda haviam sido confiscadas pelo exército alemão, mas que não se preocupassem. Mantivessem, para segurança de todos, as crianças pequenas afastadas das armas e demais aparatos bélicos, que brincassem em locais onde não atrapalhassem a movimentação das tropas, e eles os protegeriam e alimentariam enquanto ali estivessem. Os dias até melhoraram com a fazenda transformada em quartel alemão; se é que existem dias melhores que outros numa guerra.


Avanço dos exércitos alemão e austríaco - mudança da linha do front. O ponto vermelho é a casa da minha avó.


Houve sustos, neste período: afinal, não se consegue transformar uma guerra em veraneio. Como na noite em que fizeram uma comemoração qualquer entre os soldados, da qual as crianças participaram e, quando se recolheram, Maria e Amália, que dormiam na mesma cama, notaram um vulto que lhes aparecia do lado dos pés. De imediato acharam que era o pai delas; possivelmente morto em combate e tentando avisá-las. O vulto insistia em aparecer, como alguém que se levanta e torna a abaixar-se; elas acenderam uma vela e deram de cara com um soldado alemão. Minha avó apanhou uma vassoura e dá-lhe bater no rapaz, que tentava esquivar-se ou aparar os golpes com os braços gritando: "perdon!perdon!"; até encontrar com dificuldade a porta e precipitar-se escada abaixo. Elas se trancaram, choraram, rezaram, até se acalmarem e dormir. No outro dia, assim que desceram foram abordadas pelo intérprete que pediu-lhes desculpas, informando que o soldado bebera um pouco além da conta, errara de direção e acabara em seu quarto. Se elas quisessem, poderiam dar parte ao comandante, mas ele solicitava que o perdoassem e deixassem por isso mesmo. Vendo, ao fundo,o rapaz cheio de hematomas e olhar súplice, perdoaram o ocorrido.
Noutra ocasião, os alemães receberam informação de sua Inteligência de que aviões aliados iriam bombardear seus acampamentos. Rapidamente cortaram todas as amoreiras e mais algumas árvores da fazenda e cobriram toda a casa, construções auxiliares, barracas de campanha e equipamentos bélicos. Mal terminaram, surgiu o pequeno avião: a bomba foi lançada a mais de duzentos metros da casa, formando uma enorme cratera, que se tornaria atração turística por muitos anos. Não se sabe se o que funcionou foi a camuflagem dos alemães ou a precariedade da incipiente guerra aérea. Salvaram-se da bomba, mas à custa das amoreiras, inviabilizando a retomada da produção de seda.
O avanço das tropas alemãs e austro-húngaras foi contido pelos italianos no Rio Piave, poucos dias depois da queda e da retirada de Caporetto. A guerra nesta frente entrou, então, na mesma indefinição que ocorria na frente ocidental, com enorme sacrifício de vidas por ambos os lados, mas sem avanço territorial. Em junho de 1918 os alemães tentaram definir as coisas com uma ofensiva que durou oito dias e terminou com a vitória dos italianos. A partir daí, os italianos tomaram a ofensiva e em outubro iniciaram a batalha de Vitório Vêneto, derrotando as forças alemãs-austríacas e vingando Caporetto. A Itália, praticamente, decidiu a guerra, pois com o esfacelamento das forças das potências centrais na frente italiana, a Áustria viu-se obrigada a assinar um armistício com os aliados, ensejando a estes a invasão da Alemanha pelo seu território. Esta possibilidade convenceu a própria Alemanha a assinar o armistício em 11 de novembro de 1918, terminando o conflito que passaria à história com o nome de Primeira Grande Guerra.
Ao retirar suas tropas da casa dos De Carli, o comandante alemão pediu a Maria e às crianças que posassem para uma última foto, dizendo: "Se eu chegar vivo em casa quero mostrar à minha esposa o que mais me tocou nesta guerra: uma criança cuidando de quatorze crianças!"
Cerca de dez milhões de mortos custara o desatino. Porém, a lição ficaria, diziam políticos e intelectuais, nunca mais haveria guerras. Não? Vinte anos depois teria início outra, a Segunda, que terminaria com mais de cinquenta milhões de mortos!
Mas, por ora, a paz era festejada. Os exércitos desmobilizados. Os aliados, nas reuniões de Paris, obrigaram a Itália a diminuir suas pretensões em favor da Sérvia; mesmo assim, incorporou o Trentino e Trieste ao seu território. Os homens retornavam em grupos às suas casas. As mulheres e crianças ficavam nas portas e portões ansiosas, esperando noticias. Maria, seus irmãos e primos, viram um grupo de homens conversando animadamente enquanto caminhavam pela Via Racolta. No portão da pequena propriedade, um deles, barbudo, cabeludo e sujo, separou-se dos demais e entrou. As crianças se encolheram com medo, traumatizadas com as experiências dos últimos anos. Um deles gritou: "É papá! É papá!" Correram todos ao seu encontro, parando ante seu enfático aviso: "Párem, não cheguem perto, estou cheio de piolhos! Preciso de banho e tesoura, depois abraços!"
Neste ponto, a história de Maria desliga-se da história geral, tornando-se apenas uma saga familiar.
Os dias se passaram, a terra e a economia arrasadas ofereciam poucas perspectivas. Meu bisavô casou-se de novo, nasceu-lhe mais um filho. No início dos anos vinte resolveu tentar a sorte no Brasil. Numa fazenda de Vila Bonfim (hoje Bonfim Paulista), em Ribeirão Preto, Maria conheceu Pietro e casaram-se em outubro de 1923. Ela e sua madrasta engravidaram quase ao mesmo tempo. Ela, esperando minha mãe, Virgínia, e a madrasta, esperando o tio Giuseppe, último filho do meu bisavô. Mas, a madrasta não se acostumou no Brasil, onde seu bebê nascido na Itália, Marino, contraiu paralisia infantil. Então, antes mesmo do nascimento da minha mãe, meu bisavô e os demais filhos voltaram para Itália. Como bom italiano, saiu de cena dramaticamente, dizendo à minha avó: "Quando partirmos, pode imaginar que estarão passando dez caixões por aquela porta, porque nunca mais nos veremos!" Não foi bem assim. Amália também havia se enamorado de um imigrante: Agostinho Amadio. Ela seguiu para a Itália com a família, esteve por lá uns nove anos, ajudou a criar os dois menores, teve vários pretendentes, mas voltou para o seu Agostinho. Casou-se por procuração, uma vez que naquele tempo mulher solteira não viajava sozinha.

Enfim, Maria de Carli e seu esposo Pietro Vendrame (conhecido como Pedro Vendrame, tal como nos documentos brasileiros), em foto "oficial". Eles passaram a maior parte de suas vidas em Birigui-SP, tiveram sete filhos e muitos netos. Foi homenageada pela Câmara de Vereadores com seu nome em uma rua da cidade: no bairro Residencial Pedro Marin Berbel, uma rua antes denominada "Marginal 2", passou a chamar-se "Rua Maria de Carli Vendrame". Grato pela homenagem, senhores vereadores. (3)



(1) Conforme a publicação "L'agro pasianese in una cronaca del 1912", de Emanno Contelli, Edizioni La Quercia, 1982.
(2) Todas as ilustrações sobre a guerra foram retiradas da publicação "História do Século XX", Abril Cultural, 1974.
(3) Antiga foto do acervo familiar.

P.S. De Carli Antonio, acompanhado de sua segunda esposa, Pilot Albina, mais os filhos Maria, Domenica, Amelia, Tereza, Adele, Antonio, Rosa, Umberto, Primo, Irma, Secondo e Marino, mais o irmão, De Carli Lorenzo, embarcaram no vapor "Príncipe de Údine", em Gênova-Itália, em 27 de maio de 1921, desembarcando em Santos-Brasil em 13 de junho do mesmo ano. Passaram pela Hospedaria do Imigrante, em São Paulo, que os encaminhou para a fazenda Pau Alto, de propriedade de D. Iria Alves Ferreira, em Vila Bonfim, Ribeirão Preto, onde se instalaram no dia 15 do mesmo mês. Retornou à Itália no segundo semestre de 1924, deixando no Brasil apenas a filha Maria.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

OS DEZ MAIS DA HISTORIA



Então...
Um engenheiro do Google criou um software para identificar as pessoas mais importantes da história. Funciona mais ou menos como o mecanismo de busca que eles têm: depoimentos, citações, escritos, biografias, críticas, etc., um pouco de matemática e, sai o ranking. Bem, o engenheiro, a empresa e a própria web são, todos, anglofônicos, portanto, nada mais natural que a predominância de personalidades saídas deste oceano linguístico. Dos dez primeiros, quatro são anglofônicos. A lista tem milhares. Para se ter uma idéia, segundo o site Tecmundo, Mandela tem o número 356 e, Justin Bieber, 8633.
Vamos aos dez primeiros: Jesus, Napoleão, Maomé, Shakespeare, Lincoln, Washington, Hitler (vê lá se este ia faltar!), Aristóteles, Alexandre (sim, o grandão) e Jefferson (o Thomas, claro! Alguém pensou no delator do mensalão?).
Um judeu, um francês, um árabe, um inglês, dois americanos, um alemão, dois gregos e, por último, outro americano.
Dois criadores de religiões. Pois é, com a parceria do Todopoderoso fica fácil integrar a lista.
Seis estadistas; sendo quatro guerreiros, conquistadores, e dois políticos.
Um escritor e um filósofo.
Serão estas as criações mais importantes da humanidade: a religião, a guerra, a política, a literatura e a filosofia?
Eu ia dizer que faltou um comediante; mas acho que todos eles são um pouco tragicômicos.
Também não temos um cientista, a não ser que convidemos Aristóteles para representá-los.
Hitler poderia representar os pintores? E Napoleão os play-boys? Aí já seria muita especulação.
Ressalte-se desta pesquisa o quanto Napoleão Bonaparte conquistou o imaginário popular por gerações.
Também o fato de que a vez das mulheres mal começou...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A MULTA DA URBS PARA O IDOSO




Quando eu adentrei a idosidade fui, todo faceiro, apossar-me dos direitos correspondentes que o estado onde vivo nos confere, dentre eles, a cobiçada vaga exclusiva para estacionamento.
Fiquei decepcionado quando soube que, para isto, eu precisava fazer um cadastro. Não basta olhar para minha cara e ver que sou idoso? Bom, vá lá que um sujeito bonito como eu possa parecer mais jovem... Mas, nesse caso, já não valeria a carteira de identidade? Não teve arrego; acabei fazendo o tal cadastro e recebendo um “diploma de idoso” que passei a colocar no painel quando estacionava o veículo. Só que, o tal papel tem validade de apenas dois anos. Será que era esta a expectativa de vida que me davam?
O fato é que o tempo passou e não me animei a ir até o centro da cidade, num local de difícil acesso e estacionamento, a fim de renovar meu papel. Contei com a sorte, coisa que nunca tive em abundância. Hoje, a “periquita” me pegou. Puseram nas dedicadas jovens que disciplinam o trânsito esse apelido, “periquita”, porque se vestiam de verde. Porém, a que me atendeu – ou me ferrou – estava de amarelo; talvez tenham mudado o uniforme. De qualquer forma, era uma “canarinha”. Como sempre, elas colocam a multa no parabrisa e... somem! Não desisti, empreendi uma busca frenética, mesmo com chuva, e a encontrei acoitada numa lojinha, uma quadra adiante.
- Moça, que é isso aqui?
- Estacionamento irregular. A vaga é prá idoso.
- Mas, olha prá mim: eu não sou idoso?
- Seu papel venceu.
- Meu papel neste palco doido do mundo?
- Não, seu papel de idoso. E esse papel é para que a vaga não seja usada por quem não é idoso.
- Mas, agora você está me vendo: eu sou idoso. O que vale mais: o papel ou a realidade?
Bem, valeu o papel. Deu-me, de consolo, um outro papel com os horários onde me atenderão na renovação do primeiro. Mas a multa, ela não cancelou. Fiquei triste em saber que depois de tantas promessas e ilusões de modernidade na legislação ainda sou um papel.
Não vou renovar meu diploma de idoso. Que fiquem com esse direito concedido sob tanta burocracia e dificuldade, como se fosse para não ser usufruído. Não quero papo com um estado que me ignora ao vivo e em cores e prefere o diálogo apenas com um papel onde escreveram meu nome.

domingo, 13 de outubro de 2013

DE LÁ E DE CÁ


Admiram os aventureiros, os viajantes,
os que venceram distâncias para chegarem aqui,
os que derrotaram gigantes para chegarem aqui,
eu não ligo muito, simplesmente porque
sempre estive aqui.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

OS TIRANOS DA HORA.




Os nossos "letrados" sempre tiveram esse comportamento. Eram apegadíssimos a El Rey quando já países como os Estados Unidos e a França davam todo o poder a quem de direito, ao dono da casa, ou seja, ao povo. Depois, viviam pendurados no Imperador. Esgotado este modelo, tornaram-se as vivandeiras de portão de quartel, como disse um general enfadado afastando as mãos deles de suas cansadas partes pudentas.

Enfim, os nossos "letrados", incluindo aí os que escrevem e falam na grande imprensa (e, talvez, toda a ancienne classe média), sempre tiveram um medo danado do povo. Sempre advogaram que o poder fique com um pequeno grupo, ou apenas com uma parte da população, a fim de que melhor o controlem, mantendo a totalidade da população distante e tutelada.

Não é o que acontece agora? Ora, se é democracia, e na democracia todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido, então, mais poder têm que ter os eleitos do que os nomeados ou concursados. Mas, não; lançam irresponsavelmente a nação sob o jugo de mais um golpe; e os empolgados da suprema corte aceitam o patético e lamentável papel de coveiros da república, candidatando-se à imortalidade nos escaninhos mais repugnantes da história.

O rei passou ao imperador dizendo: "Meu filho, que fique para ti antes que um aventureiro deite mãos". E os generais passaram aos bacharéis dizendo: "Se não pode mais ser nosso, que seja de vocês, antes que o povo acorde e descubra que o poder lhe pertence".

Daí, fugiram da assembléia constituinte exclusiva, convocando o congresso de sempre, mapeado na ditadura e ainda com algumas figurinhas eleitas antes mesmo do que nisso se pensasse, afastando, dessa forma, o povo do debate. E mais, com partidos criados há poucos anos e desconhecidos ainda do eleitor, este votava em pessoas errando seus partidos, mas, por uma legislação eleitoral esdrúxula os votos eram computados para a agremiação citada. Como submeter o fruto de tal estelionato a um referendum? Outorgaram, cinicamente postados à beira do berço esplêndido onde a nação dorme seu eterno sono, uma constituição ilegitima e casuísta, cercada de "cláusulas pétreas", esquecidos de que a estrutura literalmente pétrea do Código de Hamurabi e das Doze Tábuas de Roma não impediu que a história os pulverizasse.

Se a população elege um Congresso para fazer as leis do país, e o Congresso é subjugado por um poder não eleito, então o povo não faz suas leis. E uma nação onde o povo não faz as leis, nem determina o modo e as formas de governo, pode ser uma jabuticaba, mas nunca uma democracia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Recebi um e-mail solicitando minha assinatura de apoio contra o Projeto de Emenda Constitucional-PEC que reduz os poderes dos promotores. Não assinei. Não sei se é inteligente dar aos promotores, que têm a missão de acusar, o poder de também investigar. Recentemente a mídia mostrou um caso nos EUA onde o cidadão passou 25 anos preso (cumpria perpétua) acusado de matar a esposa, perdeu a guarda e as visitas do filho que aos 18 anos mudou até de nome. Ele foi salvo por essa ONG que os americanos criaram justamente para rever esses casos. Exame de DNA e outras coisas demonstraram não só a inocência do cidadão, como apontaram o verdadeiro culpado, localizado porque estava no banco de dados, uma vez que HAVIA MATADO MAIS UMA MULHER. E a condenação havia acontecido porque o promotor do caso escondeu duas provas que poderiam levar os jurados a absolver o cidadão. Hoje, o promotor é juiz, pediu desculpas pelo ocorrido, mas não escapará de uma investigação. Isto ocorre por quê? Ora, porque não podemos dar excessivos poderes e liberar de controle social nenhuma pessoa ou corporação. O promotor, ser humano como qualquer um de nós, não foge às injunções da vaidade, da competição, do desejo de ganhar quando no embate contra um advogado. Se ele investiga e, ao mesmo tempo, vai competir com o advogado pelo resultado final, dificilmente permitirá gol contra, sem dúvida não avisará o árbitro que cometeu uma falta contra o adversário, ou que pôs a mão na bola durante o jogo. Então, para segurança do cidadão contra o poder das corporações, vamos dividir as coisas: um investiga, outro acusa, outro julga. Ponto. Nunca, porém, os reducionismos radicais: que se atribua ao promotor o acompanhamento pari passu da investigação; assim como, se solicite ao delegado que acompanhe a finalização do processo. Um servidor fiscaliza o outro; ou, em âmbito geral, uma corporação fiscaliza a outra. O cidadão dorme mais tranquilo. Porque, se somos pródigos em acusar e exigir punição para os casos que acompanhamos pela mídia, nada impede de um dia sermos colhidos nas malhas do engano e das evidências conectadas erroneamente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

INDIVIDUALIDADES

Se alguma coisa a vida me ensinou é que, em relação aos seres humanos não devemos nos iludir com nenhuma uniformidade. Em qualquer grupo desses que se costumam separar as pessoas (os magros ou gordos; os brancos, negros ou outra tez; os comunistas ou outros istas; os religiosos ou ateus; os deste ou doutro gênero, etc.), teremos sempre um grupo heterogêneo, pois a diversidade é consequência da individualidade, e esta é um caráter inalienável do ser humano. Assim, mesmo unidos por uma idéia, particularidade ou comportamento, teremos no grupo sempre os mais liberais e os mais conservadores, os mais discretos e os mais escrachados, os simpáticos e os antipáticos, os gentis e os grossos, os humildes e os arrogantes, enfim, uma diferença na igualdade que nos torna outros em necessidade permanente de associação. Em relação à própria particularidade que nos una, teremos uns mais engajados que outros, os que a consideram autóctone ou alóctone, os que a tenham congênita ou adquirida, os que a achem feia ou bonita, certa ou errada e, ainda, os que a possuem toda ou em parte...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O STF AO VIVO.

O que mais me impressiona em julgamentos de repercussão, como este do Mensalão, é a transparência da nossa Suprema Corte. Os homens estão lá, acertando, errando, se retratando, sendo julgados pela população do país, como se fossem "réus por profissão". É bem isto: hoje em dia, com a exposição na mídia, o juiz julga enquanto é julgado pela opinião pública. Ele julga alguém que eventualmente, por ter sido acusado de algo, torna-se réu; porém, ele próprio, fica exposto permanentemente como um "réu sem acusação", apenas pela profissão que adotou. É bem verdade que em tempos passados o juiz também era julgado pelas suas decisões; mas, o era pela crônica, ou mesmo pela história, enfim, com a batata já esfriada, a emoção acalmada. Hoje, ao menos no Supremo, ele enfrenta ao vivo e em cores, durante o momento mesmo de sua manifestação, as atenções críticas de doutos e simples. Será que existe dentre os países do mundo alguma outra Corte Suprema que age desta forma? É, podemos nos orgulhar de nosso STF. Se essa instituição comete seus erros, uma vez que seres humanos a integram, ela, porém, reinicia diariamente seus trabalhos amparada por uma grande acerto: a transparência.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

MINISTROS JOAQUIM BARBOSA E GILMAR MENDES DORMEM DURANTE DISCURSOS DA DEFESA

Deu na mídia. Não lhes parece que eles já têm a condenação no bolso, por isso podem relaxar e dormir durante a exposição da defesa? Este julgamento me lembra o "Processo da Revolução", filme francês que trata de outro, o do Danton e amigos. No filme, Danton chega a ficar afônico de tanto falar, e faz um brilhante e contundente discurso, que nada adianta porque já estava condenado politicamente pelo todo poderoso Robespierre. Hoje, Robespierre é a grande imprensa. Se a repetição da história for fiel, nossa grande imprensa se candidata ao mesmo fim de Robespierre. E o povo que, com medo da liberdade, luta nas ruas para que lhes tirem o direito de votar em quem o queiram e passem a promotores e juízes a incumbência de "protegê-los" por uma tal de "lei da ficha limpa", aplaude o circo. Valha-nos Deus!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

AGORA O MERCOSUL FICOU ILEGAL

E, não vai demorar nada para o Paraguai conseguir denunciar, com sucesso, esta ilegalidade em todos os foros internacionais. Pois os regulamentos da instituição preconizam a aprovação de novos membros pelos parlamentos dos integrantes. A Venezuela foi acolhida sem a aprovação e, agora, com a desaprovação do parlamento paraguaio. Acho que nossos apressados diplomatas não chegarão à temerária e inconsistente afirmação de que o parlamento paraguaio seja ilegítimo, uma vez que foi composto em eleições livres e democráticas.

domingo, 1 de julho de 2012

MALEPENSÊNCIAS

Compadre meu Melequem (isso mesmo: Me-le-quem! Contrário até no nome do compadre Quelemem, do Riobaldo, aquele menino do Rosa; compadre Quelemem era um bom sujeito, segurava seu pupilo nas rezas e devotices. Meu compadre é mau, prefere desdevotices), mas, ia eu dizendo, meu compadre Melequem, outro dia, chegou-se a mim com esse desvirtuamento de uma famosa frase do Rui -- aquele, o Barbosa --: "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem só pode chegar a uma conclusão: Deus é o chefe dessa malandragem toda". Mas não fica só aí os malefícios do meu compadre Melequem. Se chega também com perguntas insinuantes, como esta: "O que seria de Deus se não fosse o Diabo?" "Pois é", completa ele, "você acha que Deus teria esse prestígio todo, com tantas rezas, devotos, altares e igrejas, se o povo não vivesse acossado com medo não só do Demo, como também dos seus redutos efervescentes?" E, como toda insinuação maldosa, vai germinando nas circunvoluções cinzentas alheias as blasfemices próprias, eu já começo a elocubrar que se não fosse o pecado original, coisa do Dito Cujo, que serpenteou-se para a incauta Eva, não teríamos essa libidinagem toda que gera filhos, e não existiriam o pastor Soares, nem o Bispo Macedo, nem mesmo o Papa Bonitinho, portanto, Deus não teria nem toda uma população de adeptos crentes, nem seus fiéis representantes apascentadores. É, quem tem um compadre como o meu vive a um passo do inferno!

domingo, 17 de junho de 2012

CURITIBA DE TODAS AS ÁGUAS.

Quem bebe desta água não vai embora ou, se for, volta. Não é o que dizem de todos os lugares onde vivem dizentes? Não seriam diferentes os falares dos curitibanos. E qual seria esta água que uma vez bebida não se deixa: a de piraquara, a "toca dos peixes" dos bravos tinguis? Mas, todas as águas que do chão bebemos do céu caíram. E, ao capricho dos ventos, nem sempre caem de onde evaporam. Viajam. O céu tem seus rios caudalosos, variando suas margens, desabando em cachoeiras de chuvas que mudam constantemente de local conforme os encontros das massas quentes ou frias. Essas inconstâncias todas, tornam as águas daqui, as mesmas águas dali. Curitiba, como "tem as quatro estações do ano no mesmo dia", ou "tem apenas duas estações -- inverno e rodoferroviaria --", porque, literalmente, se encontra onde "o vento faz a curva", é o recanto onde mais chove ao sul do equador, alternando constantemente o frio e o calor, a seca e a assustadora umidade do ar, numa multipolaridade climática que, sem dúvida, se reflete no humor nosso de cada dia. Temos todos os humores, todas as etnias e todas as manias, porque bebemos de todas as águas. Assim, não precisamos de elucubrações teóricas psicanalíticas, antropológicas ou neurocientíficas para explicar nossas alternâncias entre a euforia e a depressão. Basta olharmos o pêndulo das águas que caem do céu. Se o baixo astral vem no começo do inverno, quando o susto da primeira frente fria nos entoca no aconchego da família, e passamos semanas saboreando os suíços fondies ou nos empanturrando dos pinhões nativos, basta dizer: são as águas antárticas. E se, alguns dias depois, cansados desse internamento forçado, invadimos os salões dos clubes na esperança de aprendermos tangos e boleros, basta diagnosticar: são as águas argentinas. Para, logo depois, quando o resfriado chega, as roupas não secam e o bolor toma as paredes, entrarmos em uma depressão salobra porque uma frente fria vinda do oceano venceu as do sudoeste, basta constatarmos: são as águas atlânticas. Finalmente, quando o ano chega ao fim, e o sol radiante se insinua, e tiramos os brancos braços das mangas, e nos espraiamos alegres nas calçadas das choparias, apenas para sermos expulsos pelos aguaceiros das tardes quase quentes, basta nos deliciarmos ouvindo as bicas que não cessam e nos consolarmos pensando: são as águas amazônicas.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

POBRE TERCEIRA REPÚBLICA!

Dias atrás foram o Cesar Peluso e o Joaquim Barbosa lavando roupa suja na janela.
Agora, é o Gilmar Mendes destemperado, agindo como fera acuada (para um interlocutor -- ou espectador, que é a única posição permitida a nós cidadãos nesta ré-pública -- inteligente não há nada menos convincente do que o exagero num bom argumento). Quem não deve não age desse jeito.

Concordo com a opinião do meu deputado na Gazeta do Povo:

[Mesmo ressalvando que não baterá boca com Mendes, o deputado André Vargas (PR), secretário de Comunicação do PT, achou “estranha” a versão do magistrado sobre o encontro. “Por que Lula iria falar com um ministro que foi indicado pelo PSDB e não com os oito que ele indicou?”, questionou. “E por que Mendes só divulgou essa conversa um mês depois, às vésperas do depoimento de Demóstenes Torres no Conselho de Ética?”]

Acrescente-se a estas dúvidas mais algumas.

Por que a manifestação tardia do ministro saiu na Veja, revista que só não está atolada até o pescoço na lama do Cachoeira porque revista não tem pescoço?

E por que a grande imprensa repercute tanto as falas do ministro, se as outras duas pessoas que estavam com ele na sala desmentem o que ele diz?

Mais, e o laudo do perito Mauro Nadvorny concluindo que o ministro mentiu em sua desequilibrada entrevista supostamente denunciativa, por que foi abandonado na versão escrita da Folha?

E depois, para um ministro da mais alta corte do país, chamar de bandidos investigadores que o flagraram nu, atirar contra um país que mantém laços diplomáticos e comerciais com o Brasil, como é a Venezuela, não estaria a demonstrar uma destas três coisas, senão todas: um desprezo muito grande pelas instituições que o sustentam, uma intenção golpista, ou um sofrimento mental que está a solicitar ajuda profissional?

Enfim, com esse judiciário nós, indefesos cidadãos, estamos, como dizia o Chico Anísio, nas mãos de Deus... e Ele treme!

sábado, 26 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

A JUSTIÇA DOS SONHOS!

Esta semana a justiça brasileira se superou:
deu uma liminar de fechamento da Caixa Econômica,
e outra liminar de abertura da boate Kalahari.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

MIA COUTO

Mia Couto, que delícia!
De início temi pela ousadia: retrazer Rosa tão intenso... vai aguentar?
Depois vi que não é pastiche. É a mesma musa-alma da poesia em prosa, fluente como as águas do Chico ou do Jequitinhonha, que voou corajosa desde a banda oeste do Atlântico até o calor do Índico, encontrando os mesmos sertanejos nas mesmas e intermináveis guerras, sempre prelúdios de paz interna, calmante, serenidade de vida...

Mia Couto reforça minha convicção de que no universo lusofônico se produz filosofia na literatura: e tão profunda quanto despretensiosa.

Como é rica e fecunda a literatura de língua portuguesa: sempre nos surpreendendo com o novo remoçado e o velho renovado no dínamo da atemporalidade.
Eu parei na metade a leitura do Mia Couto, a modo de ir fruindo devagar, deixando um pedaço prá mais tarde, na fé de não acabar nunca.
Como fazia na infância, com o trocado do primeiro sapato engraxado abordava a mulher da cesta e comprava uma suculenta geléia de mocotó e comia metade guardando o resto prá comer aos pedacinhos a fim que a gostosura durasse na boca a manhã toda.

ESTÓRIAS ABENSONHADAS
Mia Couto
Companhia das Letras

domingo, 22 de abril de 2012

O ECOLOGISTA CAÇADOR

O Rei Juan Carlos, da Espanha, sempre foi tido por todos como exemplo de homem íntegro, honesto, comedido, e um grande avalista da democracia e da ecologia. É o presidente honorário, no seu país, da WWF, uma das mais famosas ONGs conservacionistas.
Foi flagrado caçando elefantes e búfalos no Botsuana, onde, aliás, é permitido.
Fiel à sua imagem de homem bom, o Rei humildemente pediu desculpas, e foi perdoado pelos seus súditos.

Será que os nossos paladinos da ecologia -- sejam os militantes, os acusadores ou os julgadores --, também não dão lá suas caçadinhas nas milionárias reservas que eles protegem ou administram? Afinal, não são reis mas, sem dúvida, o trazem na barriga...

sábado, 21 de abril de 2012

SAUDADES DA PIMBA

O Requião, quem diria, recebeu um atestado de boa conduta da gangue do Cachoeira.
Sim, porque xingamento de bandido é elogio.
Enquanto que o Richinha, enfant terrible, foi flagrado prometendo mudar a lei das loterias. Esse menino vai longe...

Se bem que, eu gostava da PIMBA! Todo dia via o espetáculo dos aposentados correndo em direção à lotérica do bairro, apostar seus trocadinhos no joguinho viciado.
Depois que o Requião fechou o negócio do Cachoeira, não os vejo mais. Devem estar sedentários e deprimidos, "vendo a vida mais vivida" que vem da tv a cabo.

SUPREMO E CIDADANIA

Em minha opinião de cidadão (portanto, opinião insignificante neste país refém das corporações) o Cezar Peluso e o Joaquim Barbosa são dois esquentadinhos: quando supõem que seus egos inflacionados foram arranhados perdem as estribeiras e a responsabilidade, ofendendo a nação e amarrotando a toga que deviam preservar.
Por que não deixaram suas diferenças e destemperos verbais para o pós-aposentadoria?
O que ficaria bem numa auto-biografia, detona uma instituição se dito quando na ativa.

terça-feira, 17 de abril de 2012

DEU NO JORNAL

Agentes dos EUA levaram 20 ou 21 mulheres para hotel, diz senadora

"Fato teria ocorrido durante o encontro da Cúpula das Américas, ocorrido na Colômbia na semana passada. Má conduta de agentes do governo e militares está sendo investigada".

Pobres americanos. Não estão familiarizados com as línguas do sul e, certamente, entenderam que se tratava de um encontro de Cópula.

domingo, 15 de abril de 2012

PRESIDENTA DILMA

Quem acha que, para haver o feminino "presidenta", deveria também existir um feminino "estudanta" e um masculino "jornalisto", é porque nunca reparou que as línguas naturais não têm um mecanismo lógico de formação das palavras. As palavras e suas desinências são consagradas pelo uso, além do fato de que elas entram na língua em momentos e circunstâncias diferentes, sofrendo influência de suas origens. Senão vejamos.
Eu tenho um amigo que tem três filhos: um é geólogo, outro é biólogo e outro é astrólogo... opss!... Desculpe, cára: é astrônomo!
Tem uma obra na esquina de casa onde trabalham um carpinteiro, um pedreiro e um brasileiro... Ou serão três bolivianos?
E que negócio é esse de fazer o plural das palavras terminadas em "ão", ora em "ães", ora em "ãos", ora em "ões"?

quinta-feira, 29 de março de 2012

O CATÃO DE CALÇAS CURTAS

Não se sabe ao certo a origem da expressão "foi pego de calças curtas".
Talvez se refira à infância, num tempo e lugar onde os meninos eram obrigados a usarem calças curtas até ao início da puberdade, quando então se lhes premiavam com calças compridas. Como a criança se defende da opressão dos adultos dissimulando, escondendo e muitas vezes mentindo, ao flagrarem um adulto agindo assim, passaram a dizer que ele fora pego de calças curtas. Uma expressão humilhante, pois, o que é engraçadinho num menino, torna-se patético num adulto.
Outros dizem que a expressão tem origem no fato de que as roupas de baixo são curtas; então, o pobre coitado é pego antes que tenha tempo de levantar as calças. Tudo indica que a expressão se referia, ao menos na sua origem, aos homens, os cuidadores, nos tempos idos, dos espaços externos e seus adendos.
Acredito mais na primeira versão, pois a vejo até nos filmes americanos sobre os romanos.
Os legionários, militares, quase sempre jovens, e mesmo os jovens civis e os escravos, aparecem com suas tanguinhas reveladoras das vigorosas pernas, enquanto que os senadores, os senhores mais velhos, aparecem com suas elegantes túnicas protegendo-se das humilhações do tempo cruel.
Assim aparece o venerável Catão, o Censor, símbolo da retidão e da incorruptibilidade através da história. Nos filmes e peças desfila sua respeitável túnica escondendo as pernas carentes da massa que estacionou na cintura, impedindo que se torne caricata sua figura austera.
Muitos Catões tem produzido nossa República. Senhores distintos, chamando-se sempre de "excelências", com ternos bem cortados e de bom tecido, gravatas chamativas, bradando da tribuna ou do plenário contra os outros, os adversários políticos, os que sempre estão com a mão na cumbuca -- olha aí outra expressão necessitada de investigação histórica.
Faz nove anos que o governo treme ante o dedo em riste dos nossos Catões, cobertos pelas túnicas azuis dos democratas ou sociais-democratas. Mas, diz outro dito popular, quem aponta o indicador para alguém está sempre a apontar outros três dedos para si mesmo.
Um dos nossos nobres e excelentes Catões, o Senador Demóstenes Torres, foi pego de calças curtas -- ou de túnica curta, ou, ainda, de tanga --, pedindo dinheiro a criminosos. Pior, usando o velho expediente de solicitar a transferência de investigadores inconvenientes.
É, Senador, você foi pego como criança; cuidou tanto das calças alheias que se esqueceu das suas. E os seus amigos, seguramente todos também de calças curtas, o abandonam às feras. Mas, não se deprima, nobre Demóstenes. Todos os homens têm, um dia, que arriar as calças para alguém, ainda que seja no famigerado exame de próstata. O que não pode é ser tão lerdo a ponto de levantar as calças somente depois que o doutor já abriu a porta.
Parece que chegamos mesmo aos tempos em que todo oculto será revelado. Afinal, "apocalipse" não quer dizer "revelação"?
Que se cuidem os demais Catões.

sábado, 3 de março de 2012

HOJE É O HOUAISS; AMANHÃ QUEM SERÁ?

O Ministério Público Federal quer proibir o Dicionário Houaiss, um dos melhores da língua portuguesa, sob alegação de que a obra contém referências "preconceituosas" e "racistas" contra ciganos. Um pouco de luz nesses procuradores e enxergariam a classificação de "pejorativa" na acepção questionada. Acontece que todos os dicionários do mundo procuram registrar todas as acepções dos vocábulos, as consideradas padrão, as mais usadas, as regionais e, também, as pejorativas.
Sob protesto, a editora e a família do Houaiss concordaram com a vergonhosa censura: retiraram do dicionário as acepções pejorativas.
Pensam que os procuradores se deram por satisfeitos sendo vitoriosos nessa que é a mais abjeta das ações, a censura? Não. Querem a censura total. Alegam que o dicionário cometeu crime de racismo, e querem sua morte, sua extinção, sua retirada de circulação. Além disso, querem que a editora pague uma multa milionária pelo "delito".
Já pensaram, termos que viajar para Angola ou Moçambique quando quisermos adquirir um bom dicionário de português, tal como os argentinos sob a ditadura militar tinham que viajar ao Brasil para adquirirem livros sobre psicanálise?
Os militares-censores argentinos, que ontem eram promotores e juízes daquele povo, estão hoje no banco dos réus, execrados pela história.
Será que se eles lerem esta notícia na solidão de suas celas, não poderão pensar, a respeito desses nossos procuradores: "Nós somos vocês amanhã?"

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ELIANA CALMON

Parabéns à Ministra Eliana Calmon, corregedora do CNJ, vitoriosa em sua luta para que o Judiciário seja uma instituição da sociedade, ao invés da sociedade ser uma posse do Judiciário. Definitivamente, este século é das mulheres, essa metade de nós apartada durante tanto tempo das decisões políticas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A SAGA DOS BRASIGUAIOS

Nos anos 60 e 70 os países do cone sul da América Latina eram dominados por ditaduras irmãs, patrocinadas pelos países do bloco capitalista, que temiam o avanço dos países do bloco socialista. Em virtude dessa rivalidade e a guerra fria entre esses dois blocos, o Papa chamou a atenção para um "terceiro mundo". Em consequencia, um dos blocos passou a ser chamado de "primeiro mundo", e o outro simplesmente "bloco socialista" (a alcunha "segundo mundo" ficou estranhamente desprezada). Pois bem, o pessoal do "primeiro mundo" batia suas panelas nas cabeças dos ditadores patrocinados, exigindo comida, ainda que fosse para o gado. "Tanta terra ociosa e não produzem nada! Trabalhem, mandem-nos soja, senão tiramos a palha!" Assim estimulado o Brasil resolve crescer a taxas que chegaram a impressionantes 14% ao ano, o que exigia muita produção de energia. Como o rio Paraná tinha um enorme declive -- aliás, um só não, sete: eram Sete Quedas --, resolveram represá-lo e movimentar a maior hidrelétrica da época. O problema apresentado com a inundação das terras paraguaias seria facilmente resolvido entre irmãos. - "Eu entro com o dinheiro da obra (afinal, os bancos estrangeiros têm tanto que até emprestam), os engenheiros, operários, e o que mais for preciso; e você entra com as terras; em troca, metade da energia é sua; como você não usa, vende de volta prá mim". - "Bom negocio; só que eu quero produzir soja nas férteis terras da margem direita do Paraná, hoje cobertas por uma densa e selvagem floresta; afinal, eu também tenho o direito de agradar os nossos patrocinadores, como você faz com seu extenso território". - "Então faça!" - "Mas meu povo não sai do chaco, traumatizado com as bandeiras paulistas do século XVIII". - "Bem, eu vou ter que desestimular (eufemismo para "arruinar") um monte de pequenos proprietários de terras, nos meus Estados do Sul, a fim de entregar a área para os grandes produtores de soja, e vai me sobrar um monte de italianos". - "Então manda bastante italiano prá mim, para o lado de cá do rio". - " Tá bom; vai uns alemães e portugueses de quebra". Assim surgiram os "brasiguaios". Essa italianada toda, "convidada" pelos militares paraguaios e "estimulada" pelos militares brasileiros, passaram a Ponte da Amizade (mui amigos), afugentaram as onças e derrubaram a floresta (atitude bastante elogiada em todo o mundo e até heróica, para a época), e transformaram o Paraguai num dos principais exportadores de soja. Os militares paraguaios, matreiramente, para manterem o controle e uma fonte permanente de propinas, enrolaram para dar os títulos definitivos das terras aos italianos; aliás, ítalo-brasileiros; aliás, agora "brasiguaios". Mas, como esse pessoal queria era terra para trabalhar e dar conforto às suas famílias, tudo ficou por isso mesmo, e todos iriam viver felizes para sempre se... a coisa não mudasse. Mudou. O "primeiro mundo" resolveu que agora era bonzinho e humanista, retirou os patrocínios, as ditaduras cairam, e foi instaurada, no cone sul, a... demagogia! Os demagogos paraguaios, como os brasiguaios não votam, voltaram seus olhos gulosos para os votos dos guaranis do chaco -- agora encorajados pela leve melhoria de situação promovida pelos dividendos da exportação da soja --, e convenceram esse povo que os brasiguaios são "invasores", e que suas boas terras, agora domadas e cultivadas, podem lhes pertencer graciosamente; basta invadí-las e expulsá-los (ou, até matá-los, como já fizeram). Os demagogos brasileiros (substitutos, tal como os demagogos paraguaios, dos militares na nova irmandade), fizeram vistas grossas. E os brasiguaios ficaram órfãos. Serão espoliados e expulsos, vindo engrossar nosso contingente de sem-terras e sem-tetos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O BRASIL MEDIEVAL

A queda de braços entre o Conselho Nacional de Justiça - CNJ - e a guilda dos juizes está a demonstrar que o judiciário brasileiro é uma caixa preta que, tal como aquelas utilizadas na aviação, só será efetivamente aberta quando o avião cair. E não pensem os mestres e maiorais das guildas que o avião nunca cairá.
Pois se não for quando da queda do avião, não o será nunca. Mesmo quando o clamor e a indignação dos povos contra os desmandos dos nossos magistrados atingiram a ONU, e esta enviou duas missões em 2004 (tais como aquelas do exterminador do futuro, porque qualquer missão da ONU contra nosso poder judiciário vem do futuro, uma vez que ele estancou no passado), para everiguar as aberrações, nossos juizes e suas associações protetoras reagiram tanto, acusando as missões de afrontarem a soberania nacional (fortunas duvidosas e sentenças em causa própria agora têm outro nome), que nem mesmo os relatórios conclusivos receberam divulgação.
Para alguma coisa serviram essas missões da ONU e as atenções internacionais.
Os intocáveis, antes que viessem os capacetes azuis, fingiram consentir à sociedade um controle do judiciário. Em sua soberana e inquestionável vontade, permitiram, concederam, que os poderes eleitos pelo povo criassem a tal CNJ. Mas, de mentirinha, nada de se meter nas contas dos juizes.
Entretanto, como todo órgão passa por trocas de comando, e nas trocas de comando sempre se esquece de passar alguma coisa, os atuais comandantes, na certa, não foram devidamente avisados do acordo tácito ou de bastidores, e começaram a cumprir seu dever ético de investigar o judiciário e seus membros.
Na primeira colméia que mexeram, o TJ paulista, a crise começou. Principalmente porque algumas abelhinhas já voaram mais alto e lá por cima estão estabelecidas.
Quosque tandem abutere, Iudiciaria, patientia nostra?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

MELHORIAS NO DESIGN INTELIGENTE

Mark Twain teve a idéia; F. Scott Fitzgerald escreveu o conto; e David Finch mais Eric Roth fizeram o instigante e belo filme "O Curioso Caso de Benjamin Button". Mas, muito antes do filme, nosso insuperável Chico Anísio contou em cinco minutos, na TV, a história do sujeito que nasce velho e morre bebê. E agregando valor: apresentou-a como uma correção à obra de Deus. Agora eu, humildemente, envio ao nosso caro Pai Amado e Bom uma nova proposta de aperfeiçoamento do seu design do universo. Junto a obra Dele Próprio e a imaginação dos artistas. Na minha proposta as pessoas nascem como sempre nasceram -- recém-nascidas --, passam pelas travessuras da infância, pelas crises da adolescência, pelas loucuras da juventude, pelas realizações e decepções da maturidade e chegam à colheita da velhice. Porém, no momento da morte, quando está à beira da exaustão o mecanismo de divisão e multiplicação celular, eis que o metabolismo se inverte, e o sujeito começa a rejuvenescer a exemplo do Benjamin Button. E a justificativa científica para isso poderia ser tão facilmente encontrável quanto o foi para o próprio Finch "modernizar" a obra descaracterizando o picaresco do Fitzgerald. Minha proposta tornaria o universo muito mais bonito e interessante, pois nos daria a todos uma segunda chance, quando, refazendo o caminho de volta, poderíamos ir corrigindo os erros, mudando as escolhas, aproveitando as oportunidades perdidas, e... isso mesmo que você está pensando sobre transar com quem não transou na ida. Claro que haveria sempre os pequenos problemas não negligenciados pelos escritores citados, principalmente o fato de que a memória começaria a se comportar de maneira diferente quando o sujeito retornasse ali abaixo dos vinte. Mas, seria sempre uma perda de memória que o remeteria à inocência, nunca à rabugisse.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A SUCESSÃO DE CORPORAÇÕES DE PODER

Nenhuma corporação -- ou, se o quiserem "instituição" -- que detenha poder sobre a população pode ficar sem controle externo, sob risco de transformar-se numa casta de privilegiados. Príncipes e sacerdotes já foram considerados imprescindíveis para a permanência dos valores da sociedade, e receberam um poder sem controle. Exorbitaram tanto que Voltaire chegou a afirmar que o homem só seria livre quando o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre. Superado isso aí, claro: quem seria tão desatualizado a ponto de imaginar o pacato príncipe Charles sendo estrangulado nas tripas do simpático padre Marcelo? Por mais que a realidade de hoje seja escamoteada pelo conluio entre as "instituições republicanas" e a grande imprensa, o amanhã sempre surge e, de repente, traz um acordar da população. Quando raiar esse dia, quem será que a população vai colocar no lugar das personagens do Voltaire?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MAGISTRADOS FAZEM PARALISAÇÃO EM TODO O PAÍS

Deu na "Folha": os juízes federais estão em greve em todo país por melhores salários. Estavam ameaçando há algum tempo, conforme notícia que retirei da "Isto É" em postagem anterior sob o título: "EU NÃO ENTENDO MAIS O QUE LEIO".
Querem que aumentem seus míseros R$26.000,00 mensais em média, para algo um pouco mais justo, R$30.000,00.
Eu só lamento que não tenham paralisado há mais tempo; assim não teríamos (ainda) passado pela vergonha de ler a sentença contra o Ziraldo.

sábado, 26 de novembro de 2011

A CONDENAÇÃO DO ZIRALDO

Um juiz do nosso oeste deixou-me envergonhado e triste.
Envergonhado de ser brasileiro.
Triste por ser brasileiro.
Nesta hora, neste momento.
Porque em todas as outras horas e outros momentos,
ao sentir na pele o sol radioso,
o ar cálido sob o céu do meu pais,
eu sinto orgulho e felicidade de ser brasileiro.
Mas quando vejo como este povo submisso
que já foi vassalo do monarca,
que ja esteve refém dos fortes armados,
agora vive de joelhos ante uma justiça espúria,
sombra de uma constituinte ilegítima,
esta sim, um estelionato político,
justiça que confirma sua sanha midiática e autoritária
condenando por estelionato um homem como o Ziraldo
não dá prá conter a tristeza pelo meu povo.
A justiça brasileira senta no trono do ridículo
quando coloca no banco dos réus
um homem honrado.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O MINISTÉRIO PÚBLICO E A TORTURA

Em entrevista à Folha de São Paulo, publicada em 16.11.2011, o advogado Rogério Buratti, atualmente exilado na Itália, afirma que foi torturado por membros do ministério público e da polícia para denunciar o suposto pagamento de cinquenta mil reais ao ministro Palocci, quando este era prefeito de Ribeirão Preto, no bojo da licitação sobre o lixo da cidade. O promotor do caso, Aroldo Costa Filho, negou a acusação, dizendo que o ministério público não usa de tais métodos. O fato é que, logo após a tal denúncia, o advogado, que vinha sendo mantido preso a pedido do promotor, foi solto imediatamente, e o ministro, que vinha sendo engordado como reserva tática na sucessão do Lula caso não houvesse reeleição, caiu em desgraça. Dois anos depois, já em 2007, o advogado registrou em cartório uma declaração desmentindo a "denúncia" que fizera ao promotor e, mais recentemente, escafedeu-se para a Itália -- onde permanece protegido, talvez, por uma cidadania originária, o que faz supor seu sobrenome --, e de onde diz não pretender retornar ao Brasil para novos depoimentos ao promotor, apesar dos insistentes "convites" deste.
Eu tenho bons amigos que se tornaram promotores e confesso que não consigo siquer imaginá-los capazes de um ato de tortura. Assim como, no passado também tive bons amigos militares que negavam com veemência terem torturado alguém, e aos quais eu não conseguia imaginar na posição de torturadores. Ao que parece, a tortura é algo muito relativo, depende do ponto de vista de quem a aplica e de quem a sofre. Talvez o zeloso defensor do estado que coloca um suspeito no pau-de-arara racionaliza julgando-se "apenas um pouco duro com ele", enquanto que o cidadão que se vê ameaçado de enquadramento numa das milhares de leis e portarias municipais, estaduais ou federais que existem (e, como já o dizia Napoleão, tem tanta lei que ninguém escapa de ser enforcado), sente-se torturado. Talvez devêssemos meditar um pouco sobre os limites entre tortura e delação premiada, por exemplo.
Dentre as instituições coletivas como o ministério público, a inquisição católica, os órgãos de inteligência militar e policial das ditaduras, ou uma instituição individual como a monarquia, nós temos os bons e os maus, os honestos e os permissivos, os que abominam a coerção ilegal e os que são capazes de recorrer a métodos reprováveis. Principalmente se considerarmos que a pessoa na posição de investigador é tomada de certa paranóia, certo receio de "estar sendo enganada" pelo suspeito colocado à sua frente.
O que se vê, na prática, é que os bons dessas organizações se beneficiam dos atos dos maus, seja no aproveitamento das informações obtidas, seja no gozo do poder adquirido através do terror disseminado na sociedade pelas ameaças de processos inconvenientes ou torturas dolorosas. O cidadão indefeso que no momento se encontra à mercê do coator reverte, posteriormente, a situação, após uma absolvição judicial ou histórica. Mas, entre o antes e o depois, como dizia o comediante, tem o durante. E o "durante" gera danos irreparáveis à saúde, à economia e mesmo à imagem da vítima. Poderíamos citar vários casos flagrados pela imprensa de utilização, pelos integrantes do ministério público, do poder advindo do terror para a obtenção de vantagens pessoais aos seus membros (Sendo o caso mais gritante aquele, fartamente noticiado, de um procurador geral flagrado ligando para um presidente de assembléia legislativa, ameaçando de processos e devassas caso não votassem o aumento). Deveríamos também, talvez, fazer um estudo comparativo entre as ações impetradas pelo ministério público e seus resultados finais, que poderia nos demonstrar a falta de zelo ou má fé no uso do poder de processar à vontade sob o patrocínio do estado.
Mas, se podemos realmente aprender alguma coisa sobre tudo isso, seria nos perguntando o que têm em comum instituições como o ministério público, a inquisição católica e os doi-codis. Bem, de início podemos observar que tais instituições recebem da sociedade, num dado momento histórico, um poder autônomo, independente, sem controle, apesar de sustentado por essa mesma sociedade. Certamente, o ministério público poderia objetar que seu poder de processar à vontade, se não é controlado pela sociedade ou alguma instituição desta, é controlado pela lei. Mas essa alegação tem sido comum a todos os órgãos citados, além do que a lei será sempre passível de interpretações.
Um outro caráter comum e óbvio é o serem todas essas instituições, humanas, logo, integradas por seres humanos, e nós, humanos, albergamos em nossos corações o bem e o mal, e quase sempre falhamos em evitar que nossas tendências administrem os poderes que transitoriamente detemos.
Daí que, para evitarmos as tentações do autoritarismo, o que tem sido uma causa de sofrimento para tantos seres humanos no decorrer de nossa história, deveríamos nos abster de ficar distribuindo poderes a instituições independentes e sem controle da sociedade; instituições que completam seus quadros por critérios elaborados internamente. Ao contrário, deveríamos adotar como prática que todo poder e toda autoridade sobre os cidadãos só terão legitimidade se delegados pelos próprios cidadãos em sufrágios livres e diretos.

domingo, 13 de novembro de 2011

"Lei exige obras de arte em edifícios de Porto Alegre"

A notícia acima é da Folha deste domingo (13.11).
Não vivo dizendo que este país caminha para o mais deslavado fascismo?
Para garantir mercado a um punhado de incompetentes narcisistas (se não o fossem, venderiam suas obras a quem quisesse comprá-las) avança-se na liberdade do próximo.
Ora, prédios residenciais, tenham que tamanho tiverem, são, obviamente, RESIDÊNCIAS!
Só legisladores sem cérebro vão obrigar as pessoas a terem em suas casas obras de arte que não queiram. As obras que os cidadãos serão obrigados a expor em suas (até então sagradas) residências são "de artistas cadastrados na prefeitura" (sic!)! É a formação de uma corporação de ofício; logo teremos instalada a corrupção por uma vaga no cadastro; e, talvez, seja até este o objetivo do legislador. Pior ainda, estaremos condenando os artistas que não conseguirem efetuar seu cadastro, ou não são suficientemente aéticos para subornarem barnabés em troca da exposição de suas obras na sala de entrada das outras pessoas, ao ostracismo que, na arte, equivale ao aniquilamento. Existe possibilidade de um estado mais fascista (ou comunista, se o quiserem) do que este?
É certo que devemos aprender a valorizar a arte e os novos artistas. Mas, isso se faz através da educação, nunca com leis coercitivas e fascistas que ameacem a liberdade individual.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O 11º MANDAMENTO: PROTEGERÁS O AMBIENTE

Por que o meio ambiente está sendo degradado no Brasil?
Por que áreas de mananciais estão sendo invadidas e ocupadas por pessoas sem teto que lançam seus lixos e esgotos nas nascentes e rios?
Por que os habitantes dos remanescentes da mata atlântica vêem como única alternativa de sustento a coleta predatória do palmito ou o comércio cruel de pássaros?
Para suscitar tais perguntas basta se dê uma olhada na periferia das grandes cidades brasileiras, principalmente Curitiba. Basta se observe a movimentação suspeita dos caboclos adentrando sorrateiros as matas do nosso litoral nas épocas de desemprego.
E por que tudo isso?
Ora, é evidente que a causa imediata é a total incapacidade do estado, do poder público, em proteger reservas, parques e mananciais.
Todos gostaríamos que tal proteção houvesse, mas é vã ilusão crer-se que um estado que não consegue construir e conservar estradas, atender às necessidades da saúde pública, oferecer educação digna às crianças, defender o direito à vida, à integridade física e ao livre trânsito de seus cidadãos, vai agora conseguir proteger extensas áreas de florestas, rios e mangues, ao custo que isso acarreta.
Portanto, se quisermos ter nossas reservas florestais, nossos aquíferos, mangues e nascentes cuidados e protegidos por equipes que os estude, acompanhe e, principalmente, faça a necessária segurança, a melhor alternativa que temos é a iniciativa privada.
Entretanto, como a iniciativa privada só existe e sobrevive se tiver ganhos, lucros -- pois esta é a forma milenar, e não conhecemos outra, dela manter o próprio estado com seus impostos, e os empreendimentos sociais e ambientais com seus fundos perdidos --, a implementação dessa alternativa só é possível com parcerias onde as negociações permitam concessões à produção, a fim de que possa ser gerado o retorno em preservação.
Os integrantes das classes de renda mais elevadas da sociedade -- entre os quais se inserem não apenas os empresários, mas também os políticos, os juízes, os promotores e os jovens ambientalistas bem nutridos -- não abrem mão de suas cotas de consumo de combustível, de água e sabão para um bom banho e, muito menos, do direito de geração de lixo. No entanto, tentam impedir parcerias com a iniciativa privada no desenvolvimento sustentável que proporcionariam a geração desses bens de consumo também para os pobres. Esses pobres, uma vez desempregados e vendo os bens necessários à vida digna lhes faltarem, enquanto são desperdiçados pelos que têm bons empregos e boas mesadas, não pensam em outra alternativa de sobrevivência senão onerarem ilegalmente o meio ambiente.
Quando alguém tenta impedir que uma empresa, em troca de vinte ou trinta metros de mangue, garanta a preservação de milhares de alqueires -- garantia que, todos o sabemos, o estado não pode dar --, esse alguém está alimentando todo o círculo vicioso de degradação.
Círculo vicioso de degradação que pode muito bem ser transformado num círculo virtuoso de preservação apenas com a utilização do bom-senso.
Bom-senso que não tem faltado à população que protesta pelos seus direitos nas ruas, nas estradas ou nas colunas de leitores da imprensa; mas, tem faltado a autoridades encasteladas em bons e estáveis empregos, e a certa classe de ativistas privilegiados ávidos por bandeiras que lhes garantam exposição na mídia.

domingo, 16 de outubro de 2011

A GAFE DO OLAVO DE CARVALHO

Uma vez eu fiquei indignado na minha infância. Vi dois bêbados brigando a pauladas porque um queria votar no Jânio Quadros e o outro no Ney Braga. Meus dez anos se indignaram com a burrice dos adultos, mesmo os adultos bêbados, pois o caso era tão simples de resolver, afinal, um era candidato a presidente e o outro a governador!
Pois bem, agora tenho visto um indignado tornando-se onipresente nos sites conservadores: um tal de Olavo de Carvalho. Vídeos e mais vídeos no youtube, com milhares e milhares de acessos, e comentários indignados: "esse pt é assim mesmo", "morte aos petistas!", "abaixo a Dilma!"...
Bem, vamos ver o que o cara diz, ainda mais que ele é apresentado como "filósofo".
Abri um vídeo ao acaso. Ele esbravejava contra o PT por causa de uma proposta de emenda constitucional aprovada pela CCJ, que tira a força do vice-presidente. Propõe que, em caso de vacância no cargo de presidente, o vice assuma apenas interinamente, e o parlamento convoque nova eleição, indireta (!), para o preenchimento do tempo restante. Segundo ele, isso é artimanha do PT -- e ele compara com a tomada do poder pelo Hitler --, para se perpetuar no poder e sacanear o Temer. Muito bem, seu Olavo! Onde já se viu isso, ainda mais ressuscitando o fantasma das indiretas? Estão certos os demais indignados vociferando palavrões contra o PT no rodapé do vídeo.
Só que... eu fui pesquisar quem seria o autor de tão atrevida proposta.
Pasmem! Trata-se de um substitutivo do Demóstenes Torres, do DEM-GO, a um projeto do Arthur Virgílio, do PSDB-AM!
Bom Deus, meio século depois os bêbados continuam brigando!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

NÃO ERA BEM COM ESSA DESCATOLICIZAÇÃO QUE EU SONHAVA

Hoje é dia de Nossa Senhora da Aparecida e eu notei, não sem uma certa nostalgia, como está mais fraco o foguetório do meio dia. Quando eu era adolescente a procissão passava na rua principal ocupando toda a via e nela desfilavam todas as pessoas da cidade. Eu assistia da calçada, junto com os ateus, comunistas e espíritas. Éramos cerca de meia dúzia e nos considerávamos livres pensadores. Ao som da ladainha fazíamos entre nós -- claro, apenas entre nós e baixo para que não chegasse aos ouvidos da maioria cobraleante --, comentários, temperados pela arrogante e pretensiosa sabedoria juvenil, sobre a necessidade de acordar o povo para as benesses da laicização. Hoje, são raras e magras as procissões e os fogos, mas não aumentou o número de livres pensadores como eu sonhava; talvez tenha até diminuído. O Brasil não se tornou um grande país laico. As pessoas que largaram as velas e desapoiaram o andor tornaram-se fundamentalistas de diversos matizes. Se antes rezavam e depois voltavam descontraídas aos seus pecados saudáveis -- e abençoados por Deus --, agora tentam impor as orações, as crenças e as virtudes, ameaçando reeditar as intolerâncias medievais.
Conto os minutos cada vez mais escassos dos rojões e conjecturo com meus botões -- que ainda guardam certa dose de arrogância e pseudo sabedoria -- como já podemos sentir saudades da hegemonia católica.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

OS "PRECONCEITOS" DE TWAIN, LOBATO E MACHADO

Há pouco tempo uma entidade de consciência negra pretendia proibir nas escolas os livros de Monteiro Lobato e crucificar o funcionário que os selecionara, acusando-o, o Lobato, de racismo porque, nas "Caçadas do Pedrinho", compara a agilidade da Tia Nastácia com a de um macaco, quando ela sobe numa árvore fugindo da onça. Como ficariam, diziam tais militantes, as criancinhas de descendência africana quando aquele texto fosse lido nas salas de aula? E não adiantava dizer que o professor aproveitaria a oportunidade para trabalhar tais valores ou desvalores; não adiantando nem mesmo mostrar, como defesa do autor, outra parte do mesmo livro em que o Lobato chama de "macacada" todas as crianças e personagens brancos da história, tornando evidente que a comparação com o nosso nobre primata se deve mais à agilidade e hiperatividade deste do que à sua cor (que nem sempre é negra, diga-se de passagem). Como sempre, poderíamos lamentar a falta de criatividade nacional, pois, tais investidas, parece, apenas repetem as que houve nos Estados Unidos contra Mark Twain e o tratamento, tornado pelos evos politicamente incorreto, que ele dá, em alguns momentos, aos amigos do seu Huck Finn.
Se formos adotar tais critérios, para sermos coerentes e imparciais, teremos que proibir nas escolas um dos principais artífices da língua pátria, nosso afro-descendente Machado de Assis. Pois se lermos com os mesmos olhos inquisitoriais as agruras do seu Brás Cubas, a partir do capítulo XXX das "Memórias Póstumas", vamos encontrá-lo lidando com o medo de uma borboleta apenas pela sua cor. Quando, finalmente, ele se deixa vencer pelos preconceitos e a mata, justifica sua consciência culpada dizendo: -"Também por que diabo não era ela azul?". E conclui que talvez mesmo azul ou laranja ela não escaparia da morte, porque ele poderia tê-la espetado para o deleite dos olhos. Vejam vocês, se é azul serve para o deleite dos olhos; como é negra, mata-se e joga-se às formigas. Qual seria a reação dos nossos paladinos se tal texto fosse de um autor branco?
Mas o "odioso" preconceito de Machado não para aí: volta-se, logo adiante, contra os deficientes físicos. A bela Eugênia (vejam a escolha do nome!) que ele começara a paquerar descontrói-se aos seus olhos quando ele descobre que ela tem um pequeno defeito na perna. "O pior é que era coxa" -- escreve o mestre do idioma -- "Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a Natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro".(!) Mais adiante, enquanto ele bendiz seus pés perfeitos ao descalçar as botas, "lançava os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha (!) perder-se no horizonte do pretérito". E finaliza, cruelmente, o episódio. "Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta oura margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear (!) a tragédia humana".
Viram? Imaginem agora o drama na sala de aula onde as criancinhas negras de olhinhos arregalados e tristes pelas comparações de Lobato e Twain, vêem somar-se a isso a decepção das criancinhas com deficiência física, arrasadas pelo fato do Machado questionar até mesmo a necessidade de sua existência!
Ora, meus caros heróis da raça, não será melhor enfrentarmos o passado e seus preconceitos do que proibirmos os textos anteriores à bendita conscientização inclusiva que nos contagiou mais recentemente?
Senão, nessa paranóia proibitiva acabaremos mudos.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011

A CONDIÇÃO HUMANA

Talvez a principal prova que milita a favor da tese de que a Terra é um vale de lágrimas e nós somos seres destinados ao sofrimento, é o total descompasso entre o cérebro e o corpo. O cérebro busca o prazer; e tudo o que dá prazer ao cérebro -- comidas apimentadas, carnes vermelhas, doces, bebidas alcóolicas e outras drogas -- arrebenta com o corpo, destrói o fígado, os rins, o coração, os pulmões e por aí vai. Existe, claro, o sexo, algo em que a natureza permitiu sintonia, vez que dá prazer ao cérebro e faz bem o corpo. Mas, quem viveria só de sexo?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SER OU ESTAR, EIS A QUESTÃO.

Antigamente a gente conseguia saber quem eram, ou o quê eram, nossos amigos. Mesmo quando ficávamos muito tempo sem ver alguém, ao reencontrá-lo podíamos perguntar sobre a esposa, lembrar de alguma novidade sobre sua religião, ou convidá-lo para uma cerveja num bar ou alguma casa noturna conhecida de ambos. Hoje, você se despede de um amigo espírita; reencontra algum tempo depois com ele evangélico; e, mais alguns meses, budista. No próximo Ano Novo, prepare-se, será espírita de novo, reiniciando o ciclo que por certo incluirá outras crenças. Quanto ao estado civil, não foi apenas uma vez que me aconteceu de rever um amigo de muito tempo, perguntar-lhe sobre a esposa, e ele, sadicamente, responder apenas: "ela está logo ali; quer cumprimentá-la?" Lá vou eu esperando encontrar uma velha amiga, quando dou de cara com uma mulher completamente diferente, ou mais alta, ou mais loira, ou vice-versa, mas que me custa alguns segundos de surpresa e constrangimento. E o velho companheiro de bar e de paquera, agora é um gay assumido. Ou aquele amiguinho do colégio, que todo mundo discriminava, mas você, bonzinho, acolhia e mantinha a amizade, agora você reencontra, e quando espera que ele te apresente seu atual "amigo", ele aparece com uma loiraça de metro e tanto de pernas... e legítima! E não me venham os militantes GLS afirmarem, cheios de certezas, que "não existe ex-gay"; pois os religiosos também dizem coisas semelhantes. Tenho amigos espíritas que quando lhes conto que fulano tornou-se evangélico, eles respondem arrogantes: "ele nunca foi espírita, senão, não mudava". E a mesma reação você encontrará entre evangélicos, católicos, budistas, umbandistas ou ateus.
Daí se conclui que ninguém foi, nem é, nem nunca será coisa alguma. Nós todos, agora e permanentemente, estaremos.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O STF NA LUTA CONTRA O FASCISMO

Pode não ser tão republicana a atuação do STF usurpando poderes legislativos. Mas, temos que reconhecer que os homens legislam muito bem. Muito melhor, aliás, do que aqueles paspalhões que nós paspalhosamente elegemos para legislar (assim, na verdade, os paspalhões somos nós mesmos, os eleitores).
O Grupo dos 11 do STF estão, pacientemente mas sem recuo, limpando nossa legislação de todos os entulhos fascistas ali colocados pelas mentes autoritárias com o intuito de controlar a liberdade de expressão, tal como a obrigatoriedade do famigerado "deploma" de jornalista e, agora, enfrentando os assédios e recursos da também famigerada "ordem dos músicos", que pretende controlar a apresentação dos que dessa arte tentam sobreviver. Nossos 11 Samurais acabam de rejeitar novo recurso da "ordem" e se preparam para cortar de vez a cabeça dessa forma patétita de DIP, inconstitucionalizando a Lei de 1960 que a criou. Com a expectativa do julgamento próximo da ilegalidade do exame da OAB -- rompimento de mais um laço com nosso resistente passado medieval --, fica restando a desregulamentação, e consequente libertação total da atividade de ator, para que abandonemos o ultrapassado e vergonhoso salazarismo ibérico, que trava nosso desenvolvimento atando-nos à idade das trevas e suas guildas e corporações.

sábado, 2 de julho de 2011

OS "ERROS" NOS LIVROS DIDÁTICOS

Os jornalistas brasileiros - e, aqui, é necessária a adjetivação, pois se trata de uma espécie de jornalistas dependentes do diploma universitário, ao contrário de toda a prática nos países responsáveis pela vanguarda do conhecimento, onde o jornalista não é dependente de um diploma mas, sim, de sua capacidade jornalística, vindo de que área do conhecimento vier, funcionando o diploma apenas como uma láurea adicional, importante mas adicional - deveriam estudar uma matéria básica para qualquer um que pretenda servir-se da língua para interagir com seus semelhantes: a comunicação. Eu pensei que estudassem comunicação nas faculdades de jornalismo. Parece que não. Quem estuda comunicação, deve, obrigatoriamente estudar linguística e literatura. Reconheço que, da primeira, servem noções básicas. Mas que contemplem o clássico Saussure e uma pincelada em quem se dedicou a pensar no assunto, como Chomsky e outros, não deixando de conhecer os linguistas brasileiros como Eurico Back e Geraldo Mattos. Na literatura, é evidente que não se dispensa a leitura dos que usam a lingua para tal fim, desde os clássicos Alencar e Machado, passando pelos Ramos, Drumonds e Veríssimos, sem nunca desprezar os Rosas e Amados, e desaguando nos atuais Soares e Tezzas, sem esquecer os Ribeiros . Tantavia, quem pretende servir-se de sua língua pátria como principal instrumento de trabalho deve ir um pouco adiante e dar uma vista d'olhos nos teóricos, como Ataíde (o triste e o alegre) e Martins. Parece que nada disso passou perto dos jornalistas que criaram e alimentaram a polêmica artificial e burra sobre "os erros nos livros de português", que chegou a movimentar os parlamentares sempre à cata de escândalos, e os promotores de tocaia, gerando processos natimortos condenados ao arquivo para esconder a vergonha. Ou então, o que talvez seja pior, nossos jornalistas diplomados conhecem a linguistica, porém, incapazes intelectualmente de desnudar fatos, alimentam-se de factóides, tais como a oposição - e sua síndrome de Salieri - compensa seu apagão de criatividade com sua voracidade por escândalos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O LADO "ESCURO" DA LUA

Por que será que a imprensa, a literatura, o cinema e grande parte das pessoas chamam o lado oculto da Lua de "lado escuro da Lua"? Na lua nova ele não é nada escuro; apenas oculto. Por que tem que ser escuro aquilo que não vemos ou não conhecemos?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O DIPLOMA DE JORNALISMO

Estive lendo um trabalho sobre as exigências para exercício da profissão de jornalista em vários países, elaborado por um professor e colocado no seu blog. (Não é difícil encontrar trabalhos dessa natureza pelo google). O tal professor é francamente a favor da exigência de diploma, e essa sua necessidade psíquica orientou o trabalho. Mas, o tiro sai pela culatra: o que o trabalho evidencia é que a exigência do diploma é mais comum nos países mais atrasados. E, isso não é difícil de se compreender. Os paises mais atrasados ainda estão com muitas de suas partes sociais componentes mergulhadas na Idade Média. Daí o dizer-se que são "emergentes". E, na Idade Média, todos sabem, prevalecia um fascismo corporativista que "protegia" as pessoas da concorrência. Havia, assim, uma obsessiva reserva de mercado para os trabalhadores, para garantir seu ganha-pão, e sua inclusão numa sociedade classista e estanque. Os países pioneiros na "emersão", ou seja, na adesão à revolução capitalista, no abandono do catolicismo medieval e da inquisição, foram obrigados a caminhar para uma sociedade onde a livre competição motiva o permanente aperfeiçoamento das pessoas. Daí porque esse regime tem vencido os nostálgicos retornos aos fascismos, tanto de esquerda como de direita. E os países onde permanece a saudosista reserva de mercado nas profissões têm caminhado na esteira do progresso dos desenvolvidos, beneficiando-se como vampiros de suas benesses, sem sacrifício equivalente para o surgimento delas. No que se refere à profissão de jornalista, a exigência de diploma é mais claramente evocadora de um controle medieval da sociedade, vez que contraria (ou contrariava até pouco tempo) a liberdade de expressão. Tanto é que tal exigência vem sempre trazida pela legislação das ditaduras. Sobrevivem , depois, como entulho autoritário defendido pelos incompetentes que temem justificadamente qualquer concorrência. O autor do trabalho enfatiza, tentando defender o diploma, que nos Estados Unidos, por exempo, onde não é exigido o diploma para o exercício profissional, 75% dos que atuam na área são diplomados; ou seja, evidencia-se a preferência dos patrões pela contratação dos diplomados. Isto se deve, e se constata numa rápida observação, à qualidade das faculdades de jornalismo. E essa qualidade existe porque há concorrência. As faculdades têm que concorrer com a vida na formação dos jornalistas. Daí, esmeram-se em oferecer ao mercado um profissional melhor que o formado em carreiras empíricas dentro dos órgãos de comunicação. No caso dos países que têm essa legislação ainda submersa no medievalismo ou no autoritarismo, as faculdades funcionam como cartórios: detêm o direito de conferir o grau de jornalista aos seus alunos como uma escritura prévia que lhes permite o acesso ao trabalho, sem o perigo de concorrerem com pessoas igualmente ou melhor capacitadas, saídas não só das várias áreas das ciência humanas, como de qualquer outra; ou ainda, mesmo com apenas o ensino médio. E nós, cidadãos desses países, que já não cremos em lobisomem e papai noel, vamos continuar acreditando que essas faculdades, assentadas comodamente no direito exclusivo de distribuir diplomas (ou permissões de trabalho), vão, por motivação própria, preocupar-se em aperfeiçoamentos que aumentem seus custos?
Voltando àqueles parênteses que coloquei acima sobre a liberdade de expressão, eu diria que o jornalista diplomado, como único porta-voz licenciado e autorizado dessa liberdade em nossa sociedade, tem o seu fim desenhado no horizonte pela internet (seus blogs e seus sites de relacionamentos), e a revolução que ela representa nas formas de expressão do pensamento. A não ser, claro, que os adeptos da obrigatoriedade do diploma iniciem uma campanha para exigí-lo a quem publica seus blogs ou sites.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O AFFAIRE BATTISTI

A Itália reclama do quê?
Manteve o cára preso por APENAS dois anos.
A França até publicou os sofríveis romances dele.
Enquanto que o Brasil, ora o Brasil:
- condenou o cára a prestação de serviços comunitários e a multa de dez mínimos pelo passaporte falso;
- manteve-o na prisão, em regime fechado, por QUATRO anos, apenas na suposição de que seria extraditado.
Aqui tem justiça, viu Berlusconi?

sábado, 11 de junho de 2011

CQC - CARETICE A QUALQUER CUSTO

Não gostaram da piadinha? Pois é esse o nível desse programa.
Será que a veia humorística nacional se esgotou tão completamente, a ponto de surgirem esses necessitados de holofotes a qualquer preço? Trocadilhos infames que, reconheço, assomam à mente de quase todo mundo, mas que as pessoas calam em nome do bom gosto, são vomitados pelo grupo como se fossem as maiores genialidades.
"Helô! Eu sou humorista!", diz um deles. Que falta de autocrítica!
O pior é que, segundo dizem, pagamos royalties à Argentina por uma coisa dessas.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

HERÓIS DO FOGO E DA DEMOCRACIA

Quem não nutre admiração pelos bombeiros?
Só o Cabral, o cabra do mal.
Bravos homens que ousam exigir dignidade.
Um saláro de dois mil, quando
os que fogem do fogo ganham vinte, trinta.
Presos, fazem das grades a honra,
e dos palácios os antros da covardia.
Bombeiros presos e bandidos soltos,
é a equação da vergonha.
Rio de Janeiro agonizante,
aproveita e ressuscita
da tua exacerbada violência.
Sacode o jugo dos fascínoras,
estejam eles travestidos
de traficantes ou de autoridades!

SUPREMA CORTE DO BRASIL: ONDE IMPERA A TRANSPARÊNCIA, A DEMOCRACIA E O BOM SENSO.

Transparência, sim, pois, perguntaríamos, quantos membros de supremas cortes pelo mundo ousariam expor-se dessa forma na televisão, discutindo, dando suas justificativas e pareceres, seus votos, suas decisões, em transmissão direta para quem quisesse ver?
Democracia, porque tal transparência permite a todos, cidadãos deste e doutros países, verificarem por si mesmos a liberdade, sinceridade e o respeito com que as justificativas são expressas e os votos dados.
E, finalmente, bom senso, porque nossos ministros da suprema corte, no julgamento de um caso específico como o do Battisti (e independentemente do mérito da ação), souberam definir exatamente a competência dos poderes num estado democrático, ajudando a manter e fortalecer, com a força de suas decisões e a lucidez de suas inteligências, o equilíbrio em nossas instituições.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

SAUDADES

Hoje o dia está radiante: sol dominando um céu totalmente azul - a não ser por algumas poucas nuvens próximas do horizonte, que apenas aumentam a beleza.
Só o frio curitibano impede a lembrança da infância.
Às vezes eu mato a saudade, ultrapassando o trópico de Capricórnio e voltando.
Volto ao calor, mas não volto ao sonho...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DOMÍNIO DO INGLÊS

Tanto se fala em "analfabetismo funcional" nas críticas à educação. Tudo bem, não está errado. Mas, hoje em dia, o verdadeiro "analfabeto funcional", de qualquer nacionalidade, é aquele que não domina a língua inglesa. Isto veio, claro, no pacote da hegemonia anglo-saxã. Durante muito tempo a Inglaterra dominou os mares, o que fez sua língua ir se impondo como o código comercial por excelência; apesar de, por vários séculos, o francês permanecer como a língua da diplomacia e da nobresa. Com o declínio das antigas potências européias no início do século XX e a bipolarização do poder entre USA e URSS, seguida da estonteante vitória do primeiro ao final do século, o inglês sobrepôs-se à multipolarização do século XXI, principalmente na infovia (a via que tende a substituir todas as vias).
A guinada do inglês para o francês como língua universal talvez se tenha efetivado na Conferência de Paz que seguiu-se à Primeira Grande Guerra, a guerra que iria acabar com todas as guerras (e a Conferência que pretendia criar a paz permanente, mas que apenas adiou a hecatombe por mais vinte anos). Pelo menos é o que se depreende da leitura de um trecho do livro "Paz em Paris - 1919", da historiadora Margaret MacMillan, bisneta de Lloyd George:

"Depois de muita briga, ficou decidido que o francês e o inglês seriam as línguas oficiais para os documentos. Os franceses queriam só a sua língua, argumentando abertamente que era mais precisa e, ao mesmo tempo, tinha mais nuances que o inglês, mas na realidade não desejavam admitir que a França perdia posição entre as grandes potências. O francês, diziam eles, vinha sendo, por séculos, o idioma das comunicações internacionais e da diplomacia. Os ingleses e americanos ressaltavam que sua língua aos poucos suplantava o francês. Lloyd George revelou que sempre se arrependeu de não saber francês um pouco mais (quase não sabia nada), mas que, para ele, era absurdo que o inglês falado por mais de 170 milhões de pessoas não tivesse status idêntico ao francês. Os italianos declararam então que, nesse caso, por que não também o italiano? "Senão", disse o ministro do exterior Sonnino, "a Itália parecerá tratada como inferior, quando se exclui seu idioma". Sendo assim, disse Lloyd George, por que não também o japonês? Os delegados japoneses, que davam sinal de mal acompanhar o debate em francês ou inglês, permaneceram calados. Clemenceau cedeu, para consternação de muitos de seus próprios auxiliares".
E cedeu para sempre. Dia desses anunciaram o fechamento da biblioteca francesa em São Paulo.
Nem é preciso explicar a ausência do alemão e do russo no diálogo, uma vez que, nessa data aí, essas duas potências estavam dilaceradas, uma pela derrota, outra pela revolução.